Pai, Mãe, Irmão, Irmã
Há qualquer coisa de reconfortante e simpático quando vamos ver um filme de um realizador de que gostamos e de que andamos a ver os filmes nos últimos trinta anos e ele nos fala, dessa maneira própria que é a dele, com a sua forma de pensar e a sua mise-en-scène, de coisas em que também nós andamos a pensar. É como se fosse um encontro com um velho amigo, com o seu estilo particular, o seu charme. Reconhecemos aquela forma de ver o mundo: o absurdo é sempre para rir, mesmo se for triste. E o estilo e o charme são sempre resplandecentes, porque é sempre como se fosse a primeira vez que se dá o encontro com o filme e com o mundo.
Em que consistirá o charme de Jarmusch ? O seu estilo, loucura, grito cinematográfico ? Talvez tenha a ver com a convicção de que há uma estranheza, um modo de sermos estrangeiros a nós mesmos e àqueles que amamos que nos constitui como condição irredutível até mesmo ao amor, entre amantes, mães, pais, irmãos, irmãs, amigos. Essa condição da estranheza é uma espécie de a priori sem a qual não há o resto. Reconhecer o limite do que se reconhece. Mas a linguagem - esse vírus - tende a normalizar tudo a eito, camuflando essa condição existencial, ou domesticando-a. Micro-movimentos de câmara, enquadramentos obsessivos, longos planos, um tempo não cronológico de pura presença dos corpos, insistência sobre o espaço vazio (da cena, da paisagem, do diálogo) num dinamismo de suspensão e desdramatização, operam como uma espécie de aparelho de captura de alguma coisa que por momentos está fora desse vírus da linguagem e se deixa sentir. Muito para lá das grandes narrativas, longe vão os tempos dessas drogas pesadas, são os pequenos gestos e acontecimentos que importa ver e reter. Apologia das micro-narrativas. É tempo de cogumelos psicadélicos, sim, mas em microdosing.
Jarmusch não é único neste combate contra o vírus da linguagem, esse aparelho de controlo. Mas gosta dos vícios da linguagem, ao mesmo tempo que a combate, estabelecendo limites, gozando com ela, com anedotas, rimas, essas espécies de lengalengas que se repetem como motivos estruturantes, que funcionam ciclicamente, como os dias que enfim se repetem, todos iguais, todos diferentes. O que é singular nele é a convicção de que é preciso muito vagar e nonsense para captar essa estranheza. Que é preciso criar uma estrutura minimalista para enquadrar isso que é complexo. Que é preciso não parar de fazer perguntas, mesmo sabendo que não há respostas, ou que haverá muitas possíveis e contraditórias. Como o nascer e o morrer incessante dos dias, enquanto durarmos, os seus filmes repetem sem parar o padrão da repetição existencial fundadora. Tudo se repete. O mais e o menos importante repete-se, aparece e desaparece, vem e vai. E é na repetição de pequeninas coisas que está a estranheza, que é uma força. Como Allie, o jovem do primeiro filme de Jarmusch, Permanent Vacation, não temos muito mais a fazer do que este modo errante de viajar, de ir de um lugar ao outro, mesmo se não se sabe bem para onde se vai, porque não é, finalmente, no trajecto linear que alguma coisa especial se pode encontrar, mas noutro plano - um de simultaneidades, déjà vu, acasos, vibrações, momentos inusitados, pequenos prazeres com equivalências imperfeitas. Um plano de acontecimentos incorporais que nos atravessa, passando pelos corpos, pelas casas, pelas histórias, pelos objectos. Um plano onde se desenha sempre uma tríade, que é o primeiro número da multiplicidade e da possibilidade do fora, da fuga, da liberdade.
Qualquer coisa faz ressonância. Em três histórias, três geografias, três países, três tipos de pessoas que dificilmente se encontrariam umas com as outras, há qualquer coisa que ressoa entre elas. Jarmusch talvez tenha andado a ler o Artmut Rosa, como eu, pensei, ou talvez não, não importa, porque o filme é de algum modo uma forma de fazer operar a ressonância nos três níveis de que Rosa fala: a conexão consigo mesmo e com os outros, a conexão com as coisas e a conexão com qualquer coisa maior do que nós.
É tudo tão efémero, dizem um ao outro irmão e irmã, estes falsos gémeos, que várias vezes repetem a frase “factor twins!”, como uma coisa que os une, que constitui a sua duplicidade de gémeos. Jarmusch é um cineasta de duplos. As suas personagens são construídas numa lógica de relação, a dois, sendo o outro factor, a tríade, fundamental, enquanto estrutura narrativa, mas também relacional. Os duplos, como aqueles de Lewis Carroll, Beckett ou TinTim (Tweedledee e Tweedledum, Estagon e Didi, Dupond e Dupont) são tratantes dos pequenos e grandes absurdos da vida, dos paradoxos, dos reflexos em espelho, que envolvem sempre a troca de lugar e a inversão de trás para a frente. Irmão e irmã dizem que aquela rua que conhecem tão bem, onde viveram a sua infância, mudou muito, mas a verdade é que lhe conhecem os cantos. E a casa acabada de esvaziar das coisas dos pais que morreram num acidente de avião é filmada em espelho, o espelho do passado, que reconhecem, com a inversão de trás para a frente em abismo.
Havia muita coisa naquela casa e o irmão guardou tudo num armazém. Deixou com eles dois objectos, um rolex, do pai que pôs no pulso, e uns óculos vintage da mãe que deu à irmã, que os colocou. E reconheceram-se esses outros, sem pais, ou com os pais neles mesmos. Há energia nos objectos, memória, vibração. Mas são muitos objectos, é muita tralha essa que acumulamos durante uma vida. Visitam, juntos, o armazém onde colocaram todo o interior da casa dos pais. We’ll deal with it later, I can´t deal with it now, repetem.
Nas três histórias, uma passada em New Jersey, em que um filho e uma filha vão visitar o pai que vive no seu mundo, afastado do chamado “mundo real”, outra em Dublin, onde duas irmãs visitam a mãe, e a terceira, passada em Paris, com irmão e irmã que, tendo ficado órfãos, vão visitar a casa vazia dos seus pais, para além de pequenas rimas, como a presença da água, o questionamento sobre o modo como se brinda, as cores que vestem, parecendo combinar, sem combinar, e o relógio rolex, surgem, nas três histórias, numa espécie de visão epifânica em que o tempo se torna lento e o ambiente acústico profundo, um grupo de skaters na estrada, que deslizam nas suas pranchas como bailarinos. Parecem ervas daninhas, dizem os irmãos da história Pai, surgem por todos os lados, estas figuras melancólicas da contemporaneidade.
E depois a sublime voz de Nico: These days/ These days I seem to think about/ How all these changes came about my ways/ And I wonder if I'd see another Highway
Longa vida à doce melancolia de Jarmusch.


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